quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Por que publicar?


Lendo a coluna do Paulo Toledo na Cronópios, onde o título é este mesmo da minha, tomei a pergunta para mim. Por que publicar textos, poesias, dicas literárias, comentários? Por que azucrinar o próximo?
Escrever me faz feliz, é claro não sou masoquista. Os leitores curiosos não resistem. Eu sei, sou compulsiva também. Leio bula de remédio, lista telefônica, dicionário, jornal, revista, livros e mais livros, porta de banheiro público e muito mais.
Uma vez achei até um tesouro. Alugamos uma casa, eu tinha quatorze anos, nos fundos tinha um depósito. Um dia estava sem nada para fazer, testei algumas chaves e uma delas abriu o cadeado.
Era um quartinho do tamanho de uma sala de visitas de um apartamento pequeno. Lá dentro, um sofá e uma enorme prateleira que dava a volta na sala. Na prateleira coleções de revistas e livros.
Nos primeiros dois dias não sei o que fiz mais, li ou espirrei. Depois fui arejando o lugar e levando de uma em uma para ler em casa, marcava o lugar e colocava tudo lá de volta, em respeito à biblioteca.
Quando nos mudamos, despedi-me dela como quem muda de cidade e deixa os amigos.
Por isso eu gosto de publicar, alguém lê, e meu texto pode mudar a rotina naquele dia. Pode, quem sabe despertar a curiosidade para uma outra atitude ou forma de pensar.
Quero publicar em papel também porque muitas pessoas que eu conheço e outras tantas que ainda não conheço, não têm acesso à internet. E muitas outras que andam no trem e no ônibus comigo poderão ler meus livros na viagem. Escrevo e quero publicar para obter aprovação, para ser amada, para fazer a diferença somando, multiplicando.

Livros

nas folhas de papel
aroma é vestígio
de sentimento escondido

Personagens


Essa é a história de um amigo de um amigo meu que queria muito ser escritor. Desses famosos, que vivem de literatura. O sujeito escrevia muito e lia muito também. Ficava aporrinhando todo mundo para ler seus textos. Levava nas reuniões de amigos e da família, no bar, até no velório do tio ele levou.
Pedia opinião, uma crítica, um comentário. Todos liam e diziam que era bom. Ele ficava satisfeito na hora, mas logo batia uma insatisfação que só melhorava se ele escrevesse mais.
A mãe era a única que guardava as cópias, que já enchiam a gaveta do meio da cômoda. Cômoda antiga, gavetas grandes.
Um amigo dele sugeriu que comprasse um computador. Poderia escrever mais rápido, gravar tudo, usar a internet e passar para outras pessoas. Fazer amigos e mandar seus escritos pelo mundo. E ele fez exatamente assim e mais. Participou de concursos, foi premiado, arrumou trabalho como colunista de uma revista importante.
Então os editores começaram a ditar regras e ele escrevia sob encomenda.
A insatisfação voltou com força e ele criou um personagem, alguém livre para escrever. Podia mostrar os textos dele na família, como se fossem de um grande amigo. Todos queriam conhecer o tal amigo que escrevia tão bem. Tanto que ele precisou criar um rosto para o personagem, um estilo uma personalidade, uma história.
Falava muito nele com a esposa, que adorava as histórias do tal amigo. Ela adorava o modo como ele se vestia, os versos que ele declamava, as viagens que ele tinha feito. Passava horas ouvindo o marido contar.
E o personagem foi ficando forte, ocupando todos os espaços, ocupando seu lugar na revista, comprando roupas diferentes, trocando de carro, sorrindo e desfilando nu pela casa.
Os parentes resolveram dar um basta e procuraram a esposa para interná-lo a força.
A surpresa foi imensa.
Ela disse que jamais faria isso, pois ele era muito mais romântico, beijava muito melhor. Era um amante extraordinário. O outro, o escritor aquele, que ficasse bem longe.
Verdade ou não, mantenho meus personagens bem distantes!

Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada.
Uma vez decorei o poema do Manuel Bandeira. Não recitava para ninguém porque lá, neste lugar paradisíaco, tinha alcalóide à vontade e prostitutas bonitas. Não ficava bem para uma menina repetir esses versos, mesmo tendo sido escritos pelo Bandeira. Mas também tem os versos:
...”E quando estiver cansadoDeito na beira do rioMando chamar a mãe-d'águaPra me contar as históriasQue no tempo de eu meninoRosa vinha me contar”...
Quem me dera hoje, poder ouvir as histórias como criança, deitada na sombra, livre de problemas, preocupações, acreditando só na vida. Do tempo de eu menina. Pasárgada pode ser uma noite bem dormida, dinheiro na conta, saúde para todos – já é demais. Pode ser uma viagem de ônibus de volta para casa, ou o celular que não toca para dar notícias ruins.
Depois de grandes na idade, os lugares imaginários ficam mais distantes e quase inatingíveis, mas a sensação de paz, de calor e fantasia – não esquecemos jamais. Basta ficar assim quietinho, respirar fundo e soltar a imaginação.
...”E quando eu estiver mais tristeMas triste de não ter jeito”...
Vou-me embora pra Pasárgada.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Otimista de Carteirinha

Além de bem-humorada sou otimista, é quase óbvio.
José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1988, o primeiro para a língua portuguesa, disse em uma entrevista que os pessimistas são pessoas insatisfeitas com o mundo. E que, em princípio, seriam as únicas interessadas em alterar a rotina, já que para os otimistas tudo está bem.
Acho que não, os otimistas acreditam que tudo deve acabar bem e fazem o possível e o impossível para alcançar este objetivo. Se alguma indicação apontar para um problema ou erro, nós pensamos em um outro jeito. Uma nova maneira para fazer dar certo.
Os pessimistas é que são acomodados. Se é que vai dar errado mesmo não precisam fazer nada. O mundo é péssimo e está acabado.
Claro, tudo depende de como a gente analisa a questão. E eu discordando do Saramago! Discordando não, dando outro enfoque, só isso.
Isso porque os otimistas são criativos, e a criatividade é um fator de superação, uma nova maneira de encarar os problemas.
Acredito que discordar, desde que não seja só para contrariar, é um caminho para descobrir coisas novas. Só acontece algo novo se agirmos de maneira diferente da habitual. Tudo óbvio? Mas é isso que a gente esquece, o que é simples.
No livro “As Intermitências da Morte” de José Saramago, a morte deixa de matar por um tempo, depois espantosamente, volta a agir.
A morte é inevitável, mas como otimista de carteirinha, confio que haja uma outra vida depois.

Morte


Começo de uma nova vida?
Fim de tudo, caos, despedida.
Sem dia, sem hora marcada, chega de repente ou é pelos remédios adiada.
Palavra proibida, rumo inevitável.
Se fosse possível, seria melhor inverter:
Começar com a morte e depois sobreviver.
Nascer velho e rejuvenescer.
Mas a natureza é sábia, divina.
É no auge da juventude que devemos aprender para então na velhice, olhar para trás, colher os frutos, talvez se arrepender.
Mas alguns ainda jovens pulam todas as etapas.
Sem explicação aparente, sem nada dizer, deixam esse mundo e nada podemos fazer.
Sofre quem fica e só tem alento, se em outra vida acredita.

sábado, 14 de julho de 2007

Para onde vão os objetos perdidos?


O mundo está dividido em dois grandes grupos de pessoas. As que perdem coisas e as que acham. Existem grandes perdedores e grandes descobridores. Para perder é muito fácil, basta que o dono se desconecte dele por um momento, um desapego, e o objeto cai em esquecimento momentâneo e torna-se perdido.
Como a maioria das pessoas perde muito mais do que acha, fica a pergunta – para onde vão os objetos perdidos?
Para achar estes objetos é preciso certo treino e uma pitada de sorte. É importante estabelecer que a pessoa que acha, na maioria das vezes não é a que perdeu.
Ouvi certa vez o depoimento de um sujeito no ônibus, ele era um grande descobridor de guarda-chuvas perdidos. A técnica usada é muito simples, quase óbvia. Em dias de chuva quando o sol aparece sem aviso, os ditos objetos protetores são esquecidos, largados. Em ônibus, balcões, banheiros público, provadores de lojas, restaurantes e praças. É só ficar atento para encontrá-los. Ninguém gosta de carregar um guarda-chuva se ele não for útil no momento.
Este mesmo homem intitulou-se um iniciante em encontrar vales-transporte. Como utilizava transporte coletivo quase todos os dias, percebeu que as pessoas costumavam buscar na bolsa, os vales, ainda na parada, e com pressa acabavam derrubando algum antes de entrar no ônibus.
É uma idéia coerente. Assim fica fácil entender porque perdemos óculos quando o sol vai embora, canetas em sessões de autógrafos, cadernos em sala de aula, casacos quando esquenta, filhos em shoping center.
Na ânsia de encontrar nossos objetos perdidos podemos apelar aos santos. São Longuinho é especialista nesta tarefa. Exigindo para pagamento apenas três pulinhos. A regra é dizer ao São Longuinho, que se a coisa perdida for achada, você, que perdeu, dará três pulinhos.
Quando não são encontrados pelos incríveis descobridores, os objetos vão para um lugar mágico, onde milhares de objetos solitários esperam inconformados pelos verdadeiros donos. São catalogados e colocados aos pares em pequenas prateleiras. Existem seres especiais, quase místicos que são responsáveis pela guarda das salas e para receber os possíveis donos, caso algum deles apareça. O ambiente é sombrio e o cheiro é quase mofento.
Afirmo com convicção, pois já fui abduzida por um amigo até uma destas salas para procurar uma mala perdida.
Onde fica?
Ali mesmo, no prédio dos Correios.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Objetos e pessoas


Não consigo fugir das comparações. Um pouco pela forma, outro tanto pelo conteúdo. Um exercício. Olho para alguém e penso em cores, em frutas, em lugares, em poesias ou em palavras. Em objetos.
As comparações são ilimitadas. Ou seriam associações?
Com o tempo, se vejo a pessoa seguidamente ou se é um amigo, assume o objeto só para ele.
Tenho um amigo que é vermelho, de fruta é figo porque adora figo com strogonofe, o objeto dele é guitarra porque também é músico. Uma guitarra vermelha.
Tenho amiga microondas porque cozinha de dentro para fora, fica dias fervendo antes de explodir. Tem a geladeira que vive dando gelo nas pessoas, qualquer coisa emburra.
A abajur sempre trás uma luz quando estou chateada e usa uma saia tipo pantalha. De fruta é maçã, pois fica corada quando diz alguma bobagem.
Tive um chefe liquidificador, misturava todos os motivos, colocava uma pitada de raiva, muito mau humor e despejava em todo mundo como se fossem taças de Milk shake.
Outros amigos são livros, guardam poesias, crônicas e contos. São histórias que nos aproximaram um dia.
Minha mãe é uma casa, como no livro da Sylvia Orthof. “Se a casa fosse mãe, seria mãe das janelas, conversaria com a lua sobre as crianças estrelas, falaria de receitas, pastéis de vento, quindins, emprestaria a cozinha pra lua fazer pudins”. Meu pai é jardim, com banco para ler histórias e fonte para os passarinhos.
Tenho filho varinha de condão, pois trouxe uma mágica nova para a minha vida, e um amor que é edredom. Aconchego e proteção com cheiro de amaciante. Café quente no inverno e chá gelado no verão.
E os amigos malas é claro, como todo mundo tem.
Eu também sou esses objetos, textos, poesias e um pouco mala, às vezes.

O zorro II


Tudo começou quando eu disse que escrevo sobre qualquer coisa, até sobre o cocô do cavalo do Zorro. Não que essas bobagens possam interessar a alguém além de mim. O que importa o excremento do cavalo do mascarado? Teoricamente nada. Mas qualquer coisa pode ser o início de uma conversa, ou de um texto, e um assunto puxa outro, uma palavra traz outra e assim uma crônica.
Em tempos modernos de investigação o famoso cocô poderia indicar o que o cavalo comeu ou seus hábitos mais secretos. Agora, me faz lembrar o filme. O seriado que eu adorava quando era criança.
Refiro-me a versão mais famosa do Zorro, uma série com Guy Williams que foi ao ar em 1958. O cavaleiro mascarado tinha como missão devolver a dignidade a um povo pobre e oprimido. Don Diego De La Vega, filho de Alejandro De La Vega (George J. Lewis), um rico estancieiro, é o Zorro, que sem a máscara é calmo, preguiçoso, amante da música, desajeitado. Isso para esconder o valente e astuto Zorro. Boa essa de dupla personalidade, resolver os problemas do mundo sem precisar mostrar a cara.
Ele tem um criado, o Bernardo, que é mudo e se faz de surdo para ser os ouvidos do Zorro. Representado pelo ator Gene Sheldon. O sargento Garcia, interpretado por Henry Calvin, gosta mesmo é de contar vantagem.
O Zorro tinha notada habilidade com a espada e o chicote. Deixava sua marca, um grande “Z”rabiscado com a espada pelas paredes e até na barriga do sargento Garcia. Isso tudo permanece nas versões mais modernas, por exemplo, A Lenda do Zorro, com Antonio Banderas. O cavalo era representado pelo cavalo mesmo, e o cocô do cavalo nunca apareceu no filme não.
Mas essa conversa, ou crônica, deu muito que falar. Os amigos mais antigos prontamente avisaram que o Guy Williams, nosso famoso Zorro também atuou como Prof. John Robinson em outro seriado da época, Perdidos no Espaço (Lost in Space). Como poderia esquecer June Lockhart (Maureen Robinson), Mark Goddard (Major Donald West), Marta Kristen (Judy Robinson), Billy Mumy (Will Robinson), Angela Cartwright (Penny Robinson), Jonathan Harris (Dr. Zachary Smith) e Bob May (Robô B9-classe M3).
Outros tantos disseram que o país está precisando de um herói, como o Zorro. Talvez, de mascarados já estamos cheios! Mas particularmente, fico analisando o quanto reclamamos e o quanto estamos realmente dispostos a fazer alguma coisa prática. Nada de armas, claro. Sair assim do nosso conforto, da nossa rotina, usar algumas horas para contribuir com a uma ação que pudesse significar mudança em outras pessoas, crescimento.
Acho que estamos mais para cocô do cavalo do Zorro.