sexta-feira, 7 de março de 2008

Troca


Os paradigmas estão aí para serem quebrados, mas às vezes é difícil acreditar nas exceções. Sempre acreditei que depois dos cinqüenta anos qualquer mudança radical, importante, é quase impossível. Que ninguém consegue mudar suas atitudes depois de tanto tempo aprendendo, experimentando, adaptando seu comportamento.

Pois tenho uma amiga que tem setenta e oito anos e mudou radicalmente de atitude perante a vida. Claro, ela sofreu uma perda, ficou viúva de um casamento com maisde cinqüenta anos. É certo, quando acontece algo de muito impacto as pessoas podem mesmo mudar. Mas o interessante é que essa minha amiga era dedicadíssima ao esposo, fazia tudo para ele. Alcançava a toalha no banho, servia o prato no almoço, buscava um copo d’água a qualquer hora. Carinhosa, amiga.

Porém tinha um temperamento autoritário e controlador, pessimista na maior parte do tempo. Nunca era feliz por completo, sempre tinha um “é, mas pode acontecer algo ruim”.Ele era o otimismo em pessoa, sempre tranqüilo, apaziguador, confiante.

Quandoficou viúva, temi que ela ficasse deprimida, fechada em casa, temendo o futuro, já que vivia para ele.Levou um tempo para se recuperar, sofreu, mas tocou a vida com fé e confiança. Arrumou a casa, está cuidando da aparência, demonstrando alegria e esperança no futuro, não importa como ele venha. Que venha bem.

Eu diria até que ela assumiu a personalidade do marido que morreu, quase totalmente. Ficou apenas com a fibra e a força que já possuía.Se é possível, eu não sei, mas aconteceu.

ILAPSO


Já disse muitas vezes e repito, eu acredito. Tenho fé na vida, no desejo, nas pessoas. Um dos meus amigos está doente, com câncer. E ele está com esperança, acreditando, ao contrário das expectativas.Temo por ele, pois se não der certo, se os resultados não se mostrarem positivos,ele sofrerá muito. Mas também sem confiar, ele já estaria morrendo antes.Fico impressionada com a aura de tranqüilidade que está em volta dele. Como se ele estivesse protegido. O futuro pode ser de qualquer jeito,ele está confiante.


Confiante em Deus, independente do que aconteça.Não aquele Deus da religião, mas o da oração, o Criador.Isso não fazia parte dele antes e nem podia imaginar que ele fosse capaz. Ele parecia tão prático, tão materialista, embora fizesse suas orações,mais por medo do destino, do que por fidelidade. Disseram-me que os mais velhos nos ensinam coisas, assim, com a própria vida. Respondi que talvez. Acho que a gente aprende com todos, basta estarmos atentos. “Quando o discípulo está pronto o mestre aparece”. Acredito nessa afirmação, e mais, o mestre pode estar no próprio aluno. É simplesmente um ilapso.

Atrás da cortina


Poderia ser um conto, mas não é, aconteceu de verdade, faz pouco tempo.

Todos os dias, a qualquer hora, quando alguém chegava, ela estava espiando por detrás da cortina. Era assim a vizinha de uma amiga minha. Os vizinhos desconfiavam que ela tivesse algum problema de saúde, pois nunca a viam na rua. Alguns diziam que ela saia muito cedo, fazia compras em algum lugar distante e retornava em algum momento que ninguém percebia.


O problema é que todos juravam que a cortina mexia sempre, então quando ela dormia? Nestes momentos de compras não poderia ter ninguém em casa. Quando a mudança chegou ninguém viu. Simplesmente apareceram cortinas novas na janela. A misteriosa mulher da cortina não recebia jornais, nem cartas, não conversava com ninguém.


A mãe da minha amiga resolveu que faria uma aproximação e daquele dia em diante acenava para a janela toda vez que saia ou entrava no prédio. A cortina tremia, uma sombra passava de um lado para o outro e mais nada.


Meses depois, quando ela quase tinha desistido, uma mão acenou pelo vão da cortina. Ela não hesitou, foi até o apartamento e tocou a campainha. Quando já estava quase desistindo de esperar a porta abriu e uma simpática velhinha atendeu, convidando-a para entrar. Tudo muito arrumadinho e combinando. No sofá da sala outra velhinha, igual a que atendeu a porta, gêmea da primeira.


Não falavam com ninguém porque são do interior e não falam português corretamente, falam alemão. Mas a amizade já foi multiplicada e todos no prédio acenam para elas que já estão com as cortinas abertas.


A mãe da Lili, minha amiga, diz que agora costuma acenar sempre quando percebe alguém escondido atrás de uma cortina.

Perfídia


As pessoas me contam, não consigo evitar. Desta vez são casos de traição. Casos de amantes que trabalham no mesmo local. E outros e mais outros.

O assunto rendeu por vários dias, conversa vai e vem, alguém lembrava de mais algum detalhe. Uma sogra que bateu no genro traidor em pleno local de trabalho. Uma mulher que invadiu o escritório do marido e gritou impropérios para todos ouvirem.


Então um amigo machista disse que os problemas acontecem porque os traidores não seguem uma conduta adequada para quem tem amante. Olha só que lindo, o código de proteção do sem vergonha. Ele parte do princípio que é normal ter amante, os homens no caso. E ele nunca, é claro. Embora ele tenha afirmado que um destes princípios do amante de sucesso é negar até a morte.


Entre os demais preceitos ele diz que o traidor não deve dar informações muito particulares para a concubina. Endereço de casa, telefone particular, nomes dos familiares, detalhes da vida particular, nada. Isso se ela não for sua colega de trabalho. O que ele não acha muito interessante, pois expõe demais o salafrário.

Não deve levá-la em viagens, nem tirar fotografias. Deve encontrá-la em horário de expediente, para não causar suspeita na titular. Para ele, esposa é titular.Diz ainda que não tem problema nenhum, a esposa é sempre a preferida. Em primeiro lugar a família! A experiência só valoriza mais a relação, no caso masculino, acrescenta.


Perguntei qual seria a vantagem da amante já que ela não pode aparecer em público com o ser amado, nem compartilhar momentos de lazer com o sujeito. Ele respondeu que é o amado em si. O maravilhoso ser que dispõe de alguns momentos para entregar-se a amante.Só pode estar de brincadeira!


Mas outro colega, com mais idade, apressou-se a acrescentar que no tempo em que as mulheres não eram tão independentes,era isso mesmo que acontecia. Agora, elas estão muito inteligentes, e vingativas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Todo poderoso


Quando as pessoas passam por uma crise muito forte, como escapar de um acidente com vida, a maioria decide viver de maneira diferente. Reconhecem que a vida é maravilhosa e que não devem perder tempo com besteiras, com brigas inúteis, mau humor. Que estão aqui para buscar a felicidade. Felizmente nunca passei por um momento destes, mas sei que não preciso viver todas as experiências para aprender o que é melhor. Uma boa observação na vida dos outros pode tornar a nossa mais feliz e tranqüila. E repetir erros é tolice.
Isso significa que não posso reclamar de nada, minha vida é equilibrada e só tenho pessoas maravilhosas perto de mim. Quando acontece alguma dificuldade, o apoio também aparece. Pela minha lógica isso não é nenhum privilégio divino, ou talvez até seja, mas acredito que é o modo como encaro os problemas. Pode ser a famosa lei da atração. Pensar de maneira positiva e em soluções em vez de desculpas facilita muito.
Visitando a loja de uma amiga na semana passada, elogiei tudo, porque acho tudo realmente de bom gosto. Nem tudo serve para mim e nem por isso deixa de ser bem feito e bonito. Experimentando as roupas costumo dizer que quando a pessoa é simpática tudo fica bem. Ela dá gargalhada e diz que sou o oposto de outras pessoas, que entram na loja e só dizem que nada lhes agrada, mas acabam elogiando as mesmas peças em outras clientes.
Ainda pensando nisso, troquei de canal na televisão e o filme era “Todo Poderoso”, com Jim Carrey (Bruce) como um jornalista que assume o lugar de Deus (Morgan Freeman) por um tempo. Em uma cena do filme, Bruce sofre um acidente e o enfermeiro diz na hora em que ele acorda:
- Alguém lá em cima gosta de você.
Acredite nisso, de verdade, mesmo que no momento, esse alguém seja apenas a vizinha do apartamento de cima.

domingo, 7 de outubro de 2007

Sim ou não ao internetês


Quando o internetês apareceu na minha casa fiquei preocupada.
Internetês é a simplificação, abreviação, ou supressão de letras usada na comunicação dos jovens pela internet. Também pode significar glossário de termos utilizados na internet, telecomunicações, televisão interativa e outras áreas tecnológicas.
Tudo começou nas conversas no MSN. Meu filho adolescente escreveu para mim – pq vc naum xegou ainda. Traduzindo – por que você não chegou ainda? Essa conversa ficou longa, cheia de letras, e poucas vogais.
Tratei de aprender rápido o novo código para não correr o risco de ser tachada de ultrapassada. Depois foi a fase da informação. Será que isso não poderia prejudicá-lo na escrita?
A maioria dos professores acha que não. Considera que fugir das regras é divertido para os jovens, e que não estão usando uma nova linguagem, apenas uma técnica de abreviação. Aqueles que discordam argumentam que o aprendizado da escrita depende da memória visual e assim estaria prejudicando sim. Bem, se o aluno lê bastante e tem os seus textos corrigidos, supera a dificuldade facilmente.
Um canal de TV paga criou o Cyber Movie, uma sessão onde as legendas são em internetês e aumentou em 60% sua audiência. Os jovens acham mais fácil e rápido ler dessa forma e assistem mais filmes.
Mantidas as proporções e as novas tecnologias, nós que somos pais, tios ou avós, também tínhamos os nossos códigos. O objetivo era manter segredos, caracterizar nosso grupo, não permitir que ninguém soubesse dos nossos planos. As roupas, os cortes de cabelo, as preferências literárias, não deixam de ser códigos que usamos para nos comunicar com esse ou aquele grupo.
O problema só existe se isso afastar os jovens de uma boa conversa. Criar uma distância intransponível no relacionamento familiar.
Claro que muitos jovens brasileiros não sofrerão desse mal. Em um país onde a maioria não usa computador o internetês também será um termômetro para medir a exclusão digital.
Para quem já passou dos quarenta, mas adora internet, recomendo essa nova brincadeira, é divertido, vá treinando.
Kd vc = Cade você?, Flw = Falou , T+ = Até Mais , Oq = O quê?, c = Se ,Vlw = Valeu, Eh = É, Mto = Muito, blz = Beleza, Tb = Também, naum = Não, vc = Você, qm = Quem, tah = tá, certo, tudo bem, D+ = demais, aki = aqui.
V C LÊ E DIVULGA, TAH? D+ VER VC AKI.

Rir é o melhor remédio


Quando eu era adolescente alugamos uma casa que tinha uma peça separada nos fundos do terreno. Logo descobri a chave, e numa tarde em que estava sozinha em casa resolvi desvendar os mistérios do anexo. Era uma pequena biblioteca com uma imensa coleção da revista Seleções. A revista existe até hoje, aliás, completa sessenta e cinco anos de publicação. Um dos segmentos é o “Rir é o melhor remédio”. Na época fiquei viciada e li em todas as revistas, uma a uma. Adorava dar risadas, passava as tardes assim, lendo e rindo. As piadas eram boas, sem maldade, mas muito divertidas. E quem não gosta de rir?
Até hoje procuro sorrir sempre, achar um lado engraçado nas coisas. Não um deboche ou falta de respeito, mas uma graça, um motivo para dar uma gargalhada e relaxar um pouco. Isso acaba me ajudando porque eu rio das minhas próprias gafes e ainda conto para os outros. Acho que é genético, meu pai era assim. Ele morreu faz pouco, já contei, e quando ele já estava em coma, minha mãe me deu uma tarefa muito difícil. Eu deveria ir ao cemitério, no jazigo da família, onde estão enterrados meus antepassados, para verificar as condições e arrumar o que fosse preciso. Além de o local me provocar arrepios, a tristeza por estar precipitando algo que eu não queria passar me corroia por dentro. Enfrentei. E como precisava de uma reforma tive que tratar com um senhor já antigo no trabalho, muito falante e solidário. Ao perceber minha tristeza ele perguntou todos os detalhes e tentando me consolar disse que o que eu estava fazendo era o certo, e que a maioria das pessoas que toma essa atitude acaba dando sorte para o doente que dura mais um mês até. Para ajudar saiu contando outros casos dando exemplos e apontando os túmulos em reforma.
Na hora só pude rir da simplicidade do homem, que acostumado com a morte julgava que uns dias a mais poderiam me servir de consolo. A risada aliviou minha tensão e me fez ver que tudo isso não era nada diante das muitas coisas boas que eu tinha feito com meu pai enquanto ele tinha saúde e o quanto tínhamos rido juntos.