quinta-feira, 10 de julho de 2008

Viagem!


Adoro viajar, mas a viagem me preocupa. Isto até chegar e sentir aquele alívio, não aconteceu nada de ruim. Viagens de carro são muito estressantes. Temo as estradas, os acidentes, a velocidade. As notícias são de morte, e na véspera dos feriados somos bombardeados com apelos e tragédias. As estradas são ruins, os motoristas talvez, os carros muito velozes. Isso tudo acaba fazendo do trajeto um peso ou uma nódoa na viagem.
Os pais nos alertam para que tomemos cuidados, os amigos também. As crianças não vão brincando ou lendo no bando de trás, vão com os pescoços esticados tentando olhar para ver onde os pais irão conduzi-los.
Mas como chegar sem percorrer? Como viver sem conhecer outros lugares, sem visitar um amigo distante, um parente?
Da mesma forma, na vida toda, os percursos são muitas vezes mais importantes que o próprio objetivo.
Todos sabem quanto precisamos de estradas melhores, de pessoas que dirijam melhor, que não bebam antes de dirigir. De jovens mais preparados para tudo, ainda mais para conduzir um carro. E até mesmo para quem passe ileso enquanto tudo isso não melhorar, ficará sempre uma tristeza, um pesar por quem morre no caminho. Como no poema “De Repente, a Morte” do Affonso Romano de Sant’Anna – “Em 20/30 anos quantas mortes morrerei na morte dos demais?”.
Tristezas a parte, um aliado nas viagens é o telefone celular, usado para acalmar a família. É até cômico, as pessoas param para tomar um café e já ligam – “Mãe, está tudo bem, estamos aqui fazendo um lanche”.
Outros, na rua, caminham e falam, sorriem, balançam a cabeça afirmativamente. Está tudo bem.
Os celulares produzem cenas engraçadas. O meu, é a prova de água e antifurto. Sim, já caiu no vaso sanitário, antes do uso, e sobreviveu. Desmontei, sequei com o secador de cabelos e tudo funcionando. Anti-roubo porque assaltaram uma clínica onde eu estava aguardando uma consulta. O bandido decretou – dinheiro e celular na mão. Não pegaram meu telefone nem meu dinheiro, dos outros levaram tudo. E olha que ele não é tão simples e nem tem uma coisa piscante pendurada. Acho que foi pura sorte.
Outro dia estava aguardando com uma moça em um consultório. De repente o telefone dela tocou, uma música muito esquisita. Ela atendeu. Era o “Tchucotchuco”, namorado dela. Começou uma conversa das mais melosas. Ela pedia para ele:
- Diz que me ama vai?
Acho que ele respondia. Ela pedia:
- Fala quanto “Tchucotchuco”.
Ele falava. Ela insistia:
- Manda um beijo amor, manda?
Ele mandava, acho. Então ela exigia:
- Diz aonde amoreco!!!
Eu fiquei doida para saber, por que nessa hora ela quase teve um orgasmo.
Que viagem!!!

sábado, 24 de maio de 2008

Uma voz interior


Loucura ou não, não sei dizer, mas tudo começou com minha avó. Quando eu tinha uns seis anos, ouvi-a aconselhando uma amiga. Dizia que era preciso meditar, ficar em silêncio, para ouvir certa voz interior, que vinha do coração.
Muitas outras vezes eu vi, ela falava sozinha em voz baixa, sorria até. Balançava a cabeça afirmativamente, concordava. Adorava vê-la assim.


Tanto, que descobri ou criei, um amigo imaginário que também falava comigo. Íamos juntos para o colégio, brincávamos, e ele até fazia os temas comigo. Ele ou ela podia ser o que eu quisesse. Era menino quando nós subíamos na goiabeira e menina quando vestíamos as bonecas.


Não sei bem quando meu amigo foi morar em outro lugar, ficou distante. Também não sei precisar o exato momento em que ele voltou a falar comigo. Hoje sei que ele amadureceu muito, me dá conselhos precisos e na hora certa. Nem sempre são palavras, mas são respostas que surgem na forma de um livro, de uma pessoa, um acontecimento cotidiano.


Alter ego ou consciência, espiritualidade, anjo da guarda? Piração?
Sei lá. Estando sob controle é a conta.
E tenho confiança que isso não é privilégio meu. Sei que para outros, isso foge completamente ao controle. O limite entre a sanidade e a loucura pode tornar-se sutil.


Participei de uma oficina de crítica do conto, na CCMQ, com Flávio Ilha. O primeiro conto analisado foi William Wilson do Edgar Allan Poe. O conto é a história de um homem que se sente perseguido por um sujeito de mesmo nome que tenta roubar-lhe a identidade e a vida. O fim é trágico.
O autor denuncia-se, dá pistas de que o conflito é o dele mesmo. Uma luta interna da perversidade com a vontade agir corretamente que segundo ele, estaria em todo ser humano. Os deslizes do narrador são os do escritor, alcoolismo, vício pelo jogo.


No conto, a obsessão em derrotar o duplo chega ao extremo e na ânsia de acabar com o tormento o suicido é a única alternativa.
Porém, matando o homônimo, William Wilson acaba com a própria vida.
Mas estou tranqüila, minha voz interior não esconde nenhuma perversidade, nem compete comigo em nada.


É mais aquela voz que tantas pessoas confessam abertamente. Uma voz sábia, visceral. Uma intuição.
Se você também ouve essa voz, não tenha medo, analise, escute, quem sabe não vem daí uma boa dica.


...O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, “está batendo a meus umbrais”.
É só isto, e nada mais. ...

(Versos do poema O Corvo de Edgar Allan Poe, tradução de Fernando Pessoa)

sexta-feira, 7 de março de 2008

Troca


Os paradigmas estão aí para serem quebrados, mas às vezes é difícil acreditar nas exceções. Sempre acreditei que depois dos cinqüenta anos qualquer mudança radical, importante, é quase impossível. Que ninguém consegue mudar suas atitudes depois de tanto tempo aprendendo, experimentando, adaptando seu comportamento.

Pois tenho uma amiga que tem setenta e oito anos e mudou radicalmente de atitude perante a vida. Claro, ela sofreu uma perda, ficou viúva de um casamento com maisde cinqüenta anos. É certo, quando acontece algo de muito impacto as pessoas podem mesmo mudar. Mas o interessante é que essa minha amiga era dedicadíssima ao esposo, fazia tudo para ele. Alcançava a toalha no banho, servia o prato no almoço, buscava um copo d’água a qualquer hora. Carinhosa, amiga.

Porém tinha um temperamento autoritário e controlador, pessimista na maior parte do tempo. Nunca era feliz por completo, sempre tinha um “é, mas pode acontecer algo ruim”.Ele era o otimismo em pessoa, sempre tranqüilo, apaziguador, confiante.

Quandoficou viúva, temi que ela ficasse deprimida, fechada em casa, temendo o futuro, já que vivia para ele.Levou um tempo para se recuperar, sofreu, mas tocou a vida com fé e confiança. Arrumou a casa, está cuidando da aparência, demonstrando alegria e esperança no futuro, não importa como ele venha. Que venha bem.

Eu diria até que ela assumiu a personalidade do marido que morreu, quase totalmente. Ficou apenas com a fibra e a força que já possuía.Se é possível, eu não sei, mas aconteceu.

ILAPSO


Já disse muitas vezes e repito, eu acredito. Tenho fé na vida, no desejo, nas pessoas. Um dos meus amigos está doente, com câncer. E ele está com esperança, acreditando, ao contrário das expectativas.Temo por ele, pois se não der certo, se os resultados não se mostrarem positivos,ele sofrerá muito. Mas também sem confiar, ele já estaria morrendo antes.Fico impressionada com a aura de tranqüilidade que está em volta dele. Como se ele estivesse protegido. O futuro pode ser de qualquer jeito,ele está confiante.


Confiante em Deus, independente do que aconteça.Não aquele Deus da religião, mas o da oração, o Criador.Isso não fazia parte dele antes e nem podia imaginar que ele fosse capaz. Ele parecia tão prático, tão materialista, embora fizesse suas orações,mais por medo do destino, do que por fidelidade. Disseram-me que os mais velhos nos ensinam coisas, assim, com a própria vida. Respondi que talvez. Acho que a gente aprende com todos, basta estarmos atentos. “Quando o discípulo está pronto o mestre aparece”. Acredito nessa afirmação, e mais, o mestre pode estar no próprio aluno. É simplesmente um ilapso.

Atrás da cortina


Poderia ser um conto, mas não é, aconteceu de verdade, faz pouco tempo.

Todos os dias, a qualquer hora, quando alguém chegava, ela estava espiando por detrás da cortina. Era assim a vizinha de uma amiga minha. Os vizinhos desconfiavam que ela tivesse algum problema de saúde, pois nunca a viam na rua. Alguns diziam que ela saia muito cedo, fazia compras em algum lugar distante e retornava em algum momento que ninguém percebia.


O problema é que todos juravam que a cortina mexia sempre, então quando ela dormia? Nestes momentos de compras não poderia ter ninguém em casa. Quando a mudança chegou ninguém viu. Simplesmente apareceram cortinas novas na janela. A misteriosa mulher da cortina não recebia jornais, nem cartas, não conversava com ninguém.


A mãe da minha amiga resolveu que faria uma aproximação e daquele dia em diante acenava para a janela toda vez que saia ou entrava no prédio. A cortina tremia, uma sombra passava de um lado para o outro e mais nada.


Meses depois, quando ela quase tinha desistido, uma mão acenou pelo vão da cortina. Ela não hesitou, foi até o apartamento e tocou a campainha. Quando já estava quase desistindo de esperar a porta abriu e uma simpática velhinha atendeu, convidando-a para entrar. Tudo muito arrumadinho e combinando. No sofá da sala outra velhinha, igual a que atendeu a porta, gêmea da primeira.


Não falavam com ninguém porque são do interior e não falam português corretamente, falam alemão. Mas a amizade já foi multiplicada e todos no prédio acenam para elas que já estão com as cortinas abertas.


A mãe da Lili, minha amiga, diz que agora costuma acenar sempre quando percebe alguém escondido atrás de uma cortina.

Perfídia


As pessoas me contam, não consigo evitar. Desta vez são casos de traição. Casos de amantes que trabalham no mesmo local. E outros e mais outros.

O assunto rendeu por vários dias, conversa vai e vem, alguém lembrava de mais algum detalhe. Uma sogra que bateu no genro traidor em pleno local de trabalho. Uma mulher que invadiu o escritório do marido e gritou impropérios para todos ouvirem.


Então um amigo machista disse que os problemas acontecem porque os traidores não seguem uma conduta adequada para quem tem amante. Olha só que lindo, o código de proteção do sem vergonha. Ele parte do princípio que é normal ter amante, os homens no caso. E ele nunca, é claro. Embora ele tenha afirmado que um destes princípios do amante de sucesso é negar até a morte.


Entre os demais preceitos ele diz que o traidor não deve dar informações muito particulares para a concubina. Endereço de casa, telefone particular, nomes dos familiares, detalhes da vida particular, nada. Isso se ela não for sua colega de trabalho. O que ele não acha muito interessante, pois expõe demais o salafrário.

Não deve levá-la em viagens, nem tirar fotografias. Deve encontrá-la em horário de expediente, para não causar suspeita na titular. Para ele, esposa é titular.Diz ainda que não tem problema nenhum, a esposa é sempre a preferida. Em primeiro lugar a família! A experiência só valoriza mais a relação, no caso masculino, acrescenta.


Perguntei qual seria a vantagem da amante já que ela não pode aparecer em público com o ser amado, nem compartilhar momentos de lazer com o sujeito. Ele respondeu que é o amado em si. O maravilhoso ser que dispõe de alguns momentos para entregar-se a amante.Só pode estar de brincadeira!


Mas outro colega, com mais idade, apressou-se a acrescentar que no tempo em que as mulheres não eram tão independentes,era isso mesmo que acontecia. Agora, elas estão muito inteligentes, e vingativas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Todo poderoso


Quando as pessoas passam por uma crise muito forte, como escapar de um acidente com vida, a maioria decide viver de maneira diferente. Reconhecem que a vida é maravilhosa e que não devem perder tempo com besteiras, com brigas inúteis, mau humor. Que estão aqui para buscar a felicidade. Felizmente nunca passei por um momento destes, mas sei que não preciso viver todas as experiências para aprender o que é melhor. Uma boa observação na vida dos outros pode tornar a nossa mais feliz e tranqüila. E repetir erros é tolice.
Isso significa que não posso reclamar de nada, minha vida é equilibrada e só tenho pessoas maravilhosas perto de mim. Quando acontece alguma dificuldade, o apoio também aparece. Pela minha lógica isso não é nenhum privilégio divino, ou talvez até seja, mas acredito que é o modo como encaro os problemas. Pode ser a famosa lei da atração. Pensar de maneira positiva e em soluções em vez de desculpas facilita muito.
Visitando a loja de uma amiga na semana passada, elogiei tudo, porque acho tudo realmente de bom gosto. Nem tudo serve para mim e nem por isso deixa de ser bem feito e bonito. Experimentando as roupas costumo dizer que quando a pessoa é simpática tudo fica bem. Ela dá gargalhada e diz que sou o oposto de outras pessoas, que entram na loja e só dizem que nada lhes agrada, mas acabam elogiando as mesmas peças em outras clientes.
Ainda pensando nisso, troquei de canal na televisão e o filme era “Todo Poderoso”, com Jim Carrey (Bruce) como um jornalista que assume o lugar de Deus (Morgan Freeman) por um tempo. Em uma cena do filme, Bruce sofre um acidente e o enfermeiro diz na hora em que ele acorda:
- Alguém lá em cima gosta de você.
Acredite nisso, de verdade, mesmo que no momento, esse alguém seja apenas a vizinha do apartamento de cima.

domingo, 7 de outubro de 2007

Sim ou não ao internetês


Quando o internetês apareceu na minha casa fiquei preocupada.
Internetês é a simplificação, abreviação, ou supressão de letras usada na comunicação dos jovens pela internet. Também pode significar glossário de termos utilizados na internet, telecomunicações, televisão interativa e outras áreas tecnológicas.
Tudo começou nas conversas no MSN. Meu filho adolescente escreveu para mim – pq vc naum xegou ainda. Traduzindo – por que você não chegou ainda? Essa conversa ficou longa, cheia de letras, e poucas vogais.
Tratei de aprender rápido o novo código para não correr o risco de ser tachada de ultrapassada. Depois foi a fase da informação. Será que isso não poderia prejudicá-lo na escrita?
A maioria dos professores acha que não. Considera que fugir das regras é divertido para os jovens, e que não estão usando uma nova linguagem, apenas uma técnica de abreviação. Aqueles que discordam argumentam que o aprendizado da escrita depende da memória visual e assim estaria prejudicando sim. Bem, se o aluno lê bastante e tem os seus textos corrigidos, supera a dificuldade facilmente.
Um canal de TV paga criou o Cyber Movie, uma sessão onde as legendas são em internetês e aumentou em 60% sua audiência. Os jovens acham mais fácil e rápido ler dessa forma e assistem mais filmes.
Mantidas as proporções e as novas tecnologias, nós que somos pais, tios ou avós, também tínhamos os nossos códigos. O objetivo era manter segredos, caracterizar nosso grupo, não permitir que ninguém soubesse dos nossos planos. As roupas, os cortes de cabelo, as preferências literárias, não deixam de ser códigos que usamos para nos comunicar com esse ou aquele grupo.
O problema só existe se isso afastar os jovens de uma boa conversa. Criar uma distância intransponível no relacionamento familiar.
Claro que muitos jovens brasileiros não sofrerão desse mal. Em um país onde a maioria não usa computador o internetês também será um termômetro para medir a exclusão digital.
Para quem já passou dos quarenta, mas adora internet, recomendo essa nova brincadeira, é divertido, vá treinando.
Kd vc = Cade você?, Flw = Falou , T+ = Até Mais , Oq = O quê?, c = Se ,Vlw = Valeu, Eh = É, Mto = Muito, blz = Beleza, Tb = Também, naum = Não, vc = Você, qm = Quem, tah = tá, certo, tudo bem, D+ = demais, aki = aqui.
V C LÊ E DIVULGA, TAH? D+ VER VC AKI.

Rir é o melhor remédio


Quando eu era adolescente alugamos uma casa que tinha uma peça separada nos fundos do terreno. Logo descobri a chave, e numa tarde em que estava sozinha em casa resolvi desvendar os mistérios do anexo. Era uma pequena biblioteca com uma imensa coleção da revista Seleções. A revista existe até hoje, aliás, completa sessenta e cinco anos de publicação. Um dos segmentos é o “Rir é o melhor remédio”. Na época fiquei viciada e li em todas as revistas, uma a uma. Adorava dar risadas, passava as tardes assim, lendo e rindo. As piadas eram boas, sem maldade, mas muito divertidas. E quem não gosta de rir?
Até hoje procuro sorrir sempre, achar um lado engraçado nas coisas. Não um deboche ou falta de respeito, mas uma graça, um motivo para dar uma gargalhada e relaxar um pouco. Isso acaba me ajudando porque eu rio das minhas próprias gafes e ainda conto para os outros. Acho que é genético, meu pai era assim. Ele morreu faz pouco, já contei, e quando ele já estava em coma, minha mãe me deu uma tarefa muito difícil. Eu deveria ir ao cemitério, no jazigo da família, onde estão enterrados meus antepassados, para verificar as condições e arrumar o que fosse preciso. Além de o local me provocar arrepios, a tristeza por estar precipitando algo que eu não queria passar me corroia por dentro. Enfrentei. E como precisava de uma reforma tive que tratar com um senhor já antigo no trabalho, muito falante e solidário. Ao perceber minha tristeza ele perguntou todos os detalhes e tentando me consolar disse que o que eu estava fazendo era o certo, e que a maioria das pessoas que toma essa atitude acaba dando sorte para o doente que dura mais um mês até. Para ajudar saiu contando outros casos dando exemplos e apontando os túmulos em reforma.
Na hora só pude rir da simplicidade do homem, que acostumado com a morte julgava que uns dias a mais poderiam me servir de consolo. A risada aliviou minha tensão e me fez ver que tudo isso não era nada diante das muitas coisas boas que eu tinha feito com meu pai enquanto ele tinha saúde e o quanto tínhamos rido juntos.

Respostas

Sempre procuro respostas. Mal uma pergunta começa a ser formulada e já estou pensando em uma maneira para respondê-la. Um modo, uma solução. É comum pensar que sempre tem um jeito.
E a vida me diz que para a velhice e a doença na velhice, não existe solução. Encontrar um meio de lidar com isso não é fácil. Eu quero acreditar que é bom envelhecer com saúde, é, eu sei. Mas não é para sempre.
De repente aquele sujeito alegre, cheio de histórias, quase com oitenta e cinco anos, vira bebê. Não come com sua própria mão, não consegue ir ao banheiro, nem sequer sente que quer ir ao banheiro.
Estranho é que ele diz sim a todas as minhas perguntas e sorri sempre. Mais estranho é, que se eu pudesse simplesmente apertar em um botão, e desligá-lo de tudo que ele está passando, eu faria.
Chega, uma vida é legal enquanto a gente pode mandar nela. Depois é humilhação, sofrimento.
Talvez este sofrimento sirva para resgatar algo que temos que viver nessa vida, para amansar o egoísmo, unir a família. Mostrar que dinheiro não adianta, só dá alguma dignidade. E nem é tanto, nem suficiente.
O plano de saúde que toma a metade do meu salário, proporciona certo conforto, menos ao meu coração.
Tenho privilégios que outros não têm. Passo a frente deles nas filas e isso não muda nada. Não responde nada.
Ao contrário, mostra diferenças que eu me envergonho de ter.
Como devo agir, como será daqui para frente, quanto tempo vou viver esta situação? Não sei a resposta.
Dá vontade fazer da vida um programa na televisão e ficar sentado, com o controle remoto na mão. Se estiver chato, troco de canal. Dia de comédia - aproveito. Dia de votação, elimino o problema.
Mas não vai funcionar por muito tempo.
Quem sabe a resposta não é encarar da melhor forma possível, agir com o coração, com aquela velha intuição e superar.
Escrever sobre a doença do meu pai, sua passagem pelo hospital e espero que seu retorno para casa, em melhor estado, é um desabafo, pois não consigo pensar em outra coisa. Também é uma maneira de dizer para outras pessoas que tem alguém que sofre como elas, que temos os mesmos problemas. Que buscamos respostas.
Essa reflexão lembrou-me a última frase de uma resenha de Celso Gutfreind, sorbre o livro da Cíntia Moscovich – Por que Sou Gorda, Mamãe?.
“Por que Sou Gorda Mamãe? Sugere ainda, com simplicidade, brabeza e doçura, que a vida pode ser interessante nela mesma, na morte revisitada ou, juntando tudo, na literatura.”
Acho que é uma resposta. Na alegria ou na tristeza, a vida acaba valendo a pena, e quem sabe vira até livro.


Obs: meu pai faleceu dias depois.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Qual o seu papel?


Esta é uma brincadeira que sempre gostei de fazer, desde criança. A pergunta é – o que você quer ser?
Crianças adoram ser príncipes e princesas, heróis, bandidos, bonzinhos e malvados.
É bom se dar o direito de ser um cantor e soltar a voz. De ser um ator e representar uma peça. Recitar um poema.
É um exercício lúdico bom de fazer a vida inteira. Foi assim que aprendi a me colocar no lugar dos outros.
Faço de conta que sou minha mãe e consigo entender um pouco mais como é difícil envelhecer, ficar longe dos filhos. Faço de conta que sou meu filho e fica fácil ver como a mãe dele é chata, quando manda para o banho no melhor do jogo.
Trocar de papéis, só um pouquinho, muda o ângulo de visão, a maneira de enxergar as coisas.
Para sentir na prática é só trocar de papéis em atividades reais. No trabalho, ou na faculdade - sendo aluno em vez de professor, servindo em vez de ser servido. Estas idéias me atraem.
Participei uma ocasião de um almoço de final de ano, em uma empresa onde todos os diretores serviam as mesas nas festas. Os funcionários ficavam acanhados no início, mas depois todos estavam à vontade. É uma maneira que os diretores encontraram para retribuir a cortesia com que seus empregados os tratam durante o ano todo.
Ver de maneira diferente desenvolve a criatividade e dá uma chacoalhada na monotonia. Mesmo que certas coisas pareçam não oferecer opções de enfoque, pode sim haver outra maneira.
Moro em Porto Alegre há vinte anos e nunca tinha feito um passeio de barco pelo Guaíba. Surgiu uma oportunidade e aproveitei. O visual é lindo, é diferente, e o pôr-do-sol pode ser mais bonito ainda.
Em uma cena do filme a Era do Gelo 2, uma família se forma, em seguida cada um quer saber qual papel pode ocupar. Sid ( a preguiça) quer ser o cachorro. Muito boa essa cena. A importância que cada um atribui a determinado papel estabelece sua responsabilidade ao exercê-lo.
Temos um papel, um significado, em todas as atividades que exercemos, na família, na política, na sociedade.
Então pergunte a si mesmo qual o papel você quer exercer.

drama

troca de personagens
ele texto
ela imagem

Por que publicar?


Lendo a coluna do Paulo Toledo na Cronópios, onde o título é este mesmo da minha, tomei a pergunta para mim. Por que publicar textos, poesias, dicas literárias, comentários? Por que azucrinar o próximo?
Escrever me faz feliz, é claro não sou masoquista. Os leitores curiosos não resistem. Eu sei, sou compulsiva também. Leio bula de remédio, lista telefônica, dicionário, jornal, revista, livros e mais livros, porta de banheiro público e muito mais.
Uma vez achei até um tesouro. Alugamos uma casa, eu tinha quatorze anos, nos fundos tinha um depósito. Um dia estava sem nada para fazer, testei algumas chaves e uma delas abriu o cadeado.
Era um quartinho do tamanho de uma sala de visitas de um apartamento pequeno. Lá dentro, um sofá e uma enorme prateleira que dava a volta na sala. Na prateleira coleções de revistas e livros.
Nos primeiros dois dias não sei o que fiz mais, li ou espirrei. Depois fui arejando o lugar e levando de uma em uma para ler em casa, marcava o lugar e colocava tudo lá de volta, em respeito à biblioteca.
Quando nos mudamos, despedi-me dela como quem muda de cidade e deixa os amigos.
Por isso eu gosto de publicar, alguém lê, e meu texto pode mudar a rotina naquele dia. Pode, quem sabe despertar a curiosidade para uma outra atitude ou forma de pensar.
Quero publicar em papel também porque muitas pessoas que eu conheço e outras tantas que ainda não conheço, não têm acesso à internet. E muitas outras que andam no trem e no ônibus comigo poderão ler meus livros na viagem. Escrevo e quero publicar para obter aprovação, para ser amada, para fazer a diferença somando, multiplicando.

Livros

nas folhas de papel
aroma é vestígio
de sentimento escondido

Personagens


Essa é a história de um amigo de um amigo meu que queria muito ser escritor. Desses famosos, que vivem de literatura. O sujeito escrevia muito e lia muito também. Ficava aporrinhando todo mundo para ler seus textos. Levava nas reuniões de amigos e da família, no bar, até no velório do tio ele levou.
Pedia opinião, uma crítica, um comentário. Todos liam e diziam que era bom. Ele ficava satisfeito na hora, mas logo batia uma insatisfação que só melhorava se ele escrevesse mais.
A mãe era a única que guardava as cópias, que já enchiam a gaveta do meio da cômoda. Cômoda antiga, gavetas grandes.
Um amigo dele sugeriu que comprasse um computador. Poderia escrever mais rápido, gravar tudo, usar a internet e passar para outras pessoas. Fazer amigos e mandar seus escritos pelo mundo. E ele fez exatamente assim e mais. Participou de concursos, foi premiado, arrumou trabalho como colunista de uma revista importante.
Então os editores começaram a ditar regras e ele escrevia sob encomenda.
A insatisfação voltou com força e ele criou um personagem, alguém livre para escrever. Podia mostrar os textos dele na família, como se fossem de um grande amigo. Todos queriam conhecer o tal amigo que escrevia tão bem. Tanto que ele precisou criar um rosto para o personagem, um estilo uma personalidade, uma história.
Falava muito nele com a esposa, que adorava as histórias do tal amigo. Ela adorava o modo como ele se vestia, os versos que ele declamava, as viagens que ele tinha feito. Passava horas ouvindo o marido contar.
E o personagem foi ficando forte, ocupando todos os espaços, ocupando seu lugar na revista, comprando roupas diferentes, trocando de carro, sorrindo e desfilando nu pela casa.
Os parentes resolveram dar um basta e procuraram a esposa para interná-lo a força.
A surpresa foi imensa.
Ela disse que jamais faria isso, pois ele era muito mais romântico, beijava muito melhor. Era um amante extraordinário. O outro, o escritor aquele, que ficasse bem longe.
Verdade ou não, mantenho meus personagens bem distantes!

Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada.
Uma vez decorei o poema do Manuel Bandeira. Não recitava para ninguém porque lá, neste lugar paradisíaco, tinha alcalóide à vontade e prostitutas bonitas. Não ficava bem para uma menina repetir esses versos, mesmo tendo sido escritos pelo Bandeira. Mas também tem os versos:
...”E quando estiver cansadoDeito na beira do rioMando chamar a mãe-d'águaPra me contar as históriasQue no tempo de eu meninoRosa vinha me contar”...
Quem me dera hoje, poder ouvir as histórias como criança, deitada na sombra, livre de problemas, preocupações, acreditando só na vida. Do tempo de eu menina. Pasárgada pode ser uma noite bem dormida, dinheiro na conta, saúde para todos – já é demais. Pode ser uma viagem de ônibus de volta para casa, ou o celular que não toca para dar notícias ruins.
Depois de grandes na idade, os lugares imaginários ficam mais distantes e quase inatingíveis, mas a sensação de paz, de calor e fantasia – não esquecemos jamais. Basta ficar assim quietinho, respirar fundo e soltar a imaginação.
...”E quando eu estiver mais tristeMas triste de não ter jeito”...
Vou-me embora pra Pasárgada.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Otimista de Carteirinha

Além de bem-humorada sou otimista, é quase óbvio.
José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1988, o primeiro para a língua portuguesa, disse em uma entrevista que os pessimistas são pessoas insatisfeitas com o mundo. E que, em princípio, seriam as únicas interessadas em alterar a rotina, já que para os otimistas tudo está bem.
Acho que não, os otimistas acreditam que tudo deve acabar bem e fazem o possível e o impossível para alcançar este objetivo. Se alguma indicação apontar para um problema ou erro, nós pensamos em um outro jeito. Uma nova maneira para fazer dar certo.
Os pessimistas é que são acomodados. Se é que vai dar errado mesmo não precisam fazer nada. O mundo é péssimo e está acabado.
Claro, tudo depende de como a gente analisa a questão. E eu discordando do Saramago! Discordando não, dando outro enfoque, só isso.
Isso porque os otimistas são criativos, e a criatividade é um fator de superação, uma nova maneira de encarar os problemas.
Acredito que discordar, desde que não seja só para contrariar, é um caminho para descobrir coisas novas. Só acontece algo novo se agirmos de maneira diferente da habitual. Tudo óbvio? Mas é isso que a gente esquece, o que é simples.
No livro “As Intermitências da Morte” de José Saramago, a morte deixa de matar por um tempo, depois espantosamente, volta a agir.
A morte é inevitável, mas como otimista de carteirinha, confio que haja uma outra vida depois.

Morte


Começo de uma nova vida?
Fim de tudo, caos, despedida.
Sem dia, sem hora marcada, chega de repente ou é pelos remédios adiada.
Palavra proibida, rumo inevitável.
Se fosse possível, seria melhor inverter:
Começar com a morte e depois sobreviver.
Nascer velho e rejuvenescer.
Mas a natureza é sábia, divina.
É no auge da juventude que devemos aprender para então na velhice, olhar para trás, colher os frutos, talvez se arrepender.
Mas alguns ainda jovens pulam todas as etapas.
Sem explicação aparente, sem nada dizer, deixam esse mundo e nada podemos fazer.
Sofre quem fica e só tem alento, se em outra vida acredita.

sábado, 14 de julho de 2007

Para onde vão os objetos perdidos?


O mundo está dividido em dois grandes grupos de pessoas. As que perdem coisas e as que acham. Existem grandes perdedores e grandes descobridores. Para perder é muito fácil, basta que o dono se desconecte dele por um momento, um desapego, e o objeto cai em esquecimento momentâneo e torna-se perdido.
Como a maioria das pessoas perde muito mais do que acha, fica a pergunta – para onde vão os objetos perdidos?
Para achar estes objetos é preciso certo treino e uma pitada de sorte. É importante estabelecer que a pessoa que acha, na maioria das vezes não é a que perdeu.
Ouvi certa vez o depoimento de um sujeito no ônibus, ele era um grande descobridor de guarda-chuvas perdidos. A técnica usada é muito simples, quase óbvia. Em dias de chuva quando o sol aparece sem aviso, os ditos objetos protetores são esquecidos, largados. Em ônibus, balcões, banheiros público, provadores de lojas, restaurantes e praças. É só ficar atento para encontrá-los. Ninguém gosta de carregar um guarda-chuva se ele não for útil no momento.
Este mesmo homem intitulou-se um iniciante em encontrar vales-transporte. Como utilizava transporte coletivo quase todos os dias, percebeu que as pessoas costumavam buscar na bolsa, os vales, ainda na parada, e com pressa acabavam derrubando algum antes de entrar no ônibus.
É uma idéia coerente. Assim fica fácil entender porque perdemos óculos quando o sol vai embora, canetas em sessões de autógrafos, cadernos em sala de aula, casacos quando esquenta, filhos em shoping center.
Na ânsia de encontrar nossos objetos perdidos podemos apelar aos santos. São Longuinho é especialista nesta tarefa. Exigindo para pagamento apenas três pulinhos. A regra é dizer ao São Longuinho, que se a coisa perdida for achada, você, que perdeu, dará três pulinhos.
Quando não são encontrados pelos incríveis descobridores, os objetos vão para um lugar mágico, onde milhares de objetos solitários esperam inconformados pelos verdadeiros donos. São catalogados e colocados aos pares em pequenas prateleiras. Existem seres especiais, quase místicos que são responsáveis pela guarda das salas e para receber os possíveis donos, caso algum deles apareça. O ambiente é sombrio e o cheiro é quase mofento.
Afirmo com convicção, pois já fui abduzida por um amigo até uma destas salas para procurar uma mala perdida.
Onde fica?
Ali mesmo, no prédio dos Correios.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Objetos e pessoas


Não consigo fugir das comparações. Um pouco pela forma, outro tanto pelo conteúdo. Um exercício. Olho para alguém e penso em cores, em frutas, em lugares, em poesias ou em palavras. Em objetos.
As comparações são ilimitadas. Ou seriam associações?
Com o tempo, se vejo a pessoa seguidamente ou se é um amigo, assume o objeto só para ele.
Tenho um amigo que é vermelho, de fruta é figo porque adora figo com strogonofe, o objeto dele é guitarra porque também é músico. Uma guitarra vermelha.
Tenho amiga microondas porque cozinha de dentro para fora, fica dias fervendo antes de explodir. Tem a geladeira que vive dando gelo nas pessoas, qualquer coisa emburra.
A abajur sempre trás uma luz quando estou chateada e usa uma saia tipo pantalha. De fruta é maçã, pois fica corada quando diz alguma bobagem.
Tive um chefe liquidificador, misturava todos os motivos, colocava uma pitada de raiva, muito mau humor e despejava em todo mundo como se fossem taças de Milk shake.
Outros amigos são livros, guardam poesias, crônicas e contos. São histórias que nos aproximaram um dia.
Minha mãe é uma casa, como no livro da Sylvia Orthof. “Se a casa fosse mãe, seria mãe das janelas, conversaria com a lua sobre as crianças estrelas, falaria de receitas, pastéis de vento, quindins, emprestaria a cozinha pra lua fazer pudins”. Meu pai é jardim, com banco para ler histórias e fonte para os passarinhos.
Tenho filho varinha de condão, pois trouxe uma mágica nova para a minha vida, e um amor que é edredom. Aconchego e proteção com cheiro de amaciante. Café quente no inverno e chá gelado no verão.
E os amigos malas é claro, como todo mundo tem.
Eu também sou esses objetos, textos, poesias e um pouco mala, às vezes.

O zorro II


Tudo começou quando eu disse que escrevo sobre qualquer coisa, até sobre o cocô do cavalo do Zorro. Não que essas bobagens possam interessar a alguém além de mim. O que importa o excremento do cavalo do mascarado? Teoricamente nada. Mas qualquer coisa pode ser o início de uma conversa, ou de um texto, e um assunto puxa outro, uma palavra traz outra e assim uma crônica.
Em tempos modernos de investigação o famoso cocô poderia indicar o que o cavalo comeu ou seus hábitos mais secretos. Agora, me faz lembrar o filme. O seriado que eu adorava quando era criança.
Refiro-me a versão mais famosa do Zorro, uma série com Guy Williams que foi ao ar em 1958. O cavaleiro mascarado tinha como missão devolver a dignidade a um povo pobre e oprimido. Don Diego De La Vega, filho de Alejandro De La Vega (George J. Lewis), um rico estancieiro, é o Zorro, que sem a máscara é calmo, preguiçoso, amante da música, desajeitado. Isso para esconder o valente e astuto Zorro. Boa essa de dupla personalidade, resolver os problemas do mundo sem precisar mostrar a cara.
Ele tem um criado, o Bernardo, que é mudo e se faz de surdo para ser os ouvidos do Zorro. Representado pelo ator Gene Sheldon. O sargento Garcia, interpretado por Henry Calvin, gosta mesmo é de contar vantagem.
O Zorro tinha notada habilidade com a espada e o chicote. Deixava sua marca, um grande “Z”rabiscado com a espada pelas paredes e até na barriga do sargento Garcia. Isso tudo permanece nas versões mais modernas, por exemplo, A Lenda do Zorro, com Antonio Banderas. O cavalo era representado pelo cavalo mesmo, e o cocô do cavalo nunca apareceu no filme não.
Mas essa conversa, ou crônica, deu muito que falar. Os amigos mais antigos prontamente avisaram que o Guy Williams, nosso famoso Zorro também atuou como Prof. John Robinson em outro seriado da época, Perdidos no Espaço (Lost in Space). Como poderia esquecer June Lockhart (Maureen Robinson), Mark Goddard (Major Donald West), Marta Kristen (Judy Robinson), Billy Mumy (Will Robinson), Angela Cartwright (Penny Robinson), Jonathan Harris (Dr. Zachary Smith) e Bob May (Robô B9-classe M3).
Outros tantos disseram que o país está precisando de um herói, como o Zorro. Talvez, de mascarados já estamos cheios! Mas particularmente, fico analisando o quanto reclamamos e o quanto estamos realmente dispostos a fazer alguma coisa prática. Nada de armas, claro. Sair assim do nosso conforto, da nossa rotina, usar algumas horas para contribuir com a uma ação que pudesse significar mudança em outras pessoas, crescimento.
Acho que estamos mais para cocô do cavalo do Zorro.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

O que seria?

O que seria da amizade
Se um amigo não aparecesse
Do nada para nos fazer sorrir,
Para acompanhar em um momento difícil,
Ou simplesmente tomar um café?
- Seria nada.
O que seria da paixão
Sem fantasia, sem surpresa ou perfume,
Sem boca vermelha,
Mordida na orelha
E ciúme?
- Rotina.
O que seria do amor sem carinho,
Respeito, amizade. Sem ser
Companheiro, dividir, ceder, perdoar?
- Vazio.
O que seria da vida sem o imprevisto,
O arrependimento, a busca e a fé?
- Morte.
O que seria da morte sem aqueles
Que acreditam no fim de tudo e os outros
Que sabem que existe outra vida, outras vidas?
- Mentira.
O que seria do domingo
Se não fosse prenúncio de segunda-feira,
De tédio, de falta de inspiração?
- Seria outro dia.
E se o conto não virasse romance e
A imaginação não permitisse sonhar?
O mundo seria diferente
E de certo
Sem poesia.

O melhor sono


Aprendemos desde cedo a observar, tirar conclusões e usar da experiência de outros para não repetir os mesmos erros. Algumas coisas, nós fazemos, mesmo com a certeza de que é um risco ou faz mal a saúde. Fumamos, bebemos, aceleramos em locais proibidos.
E tantos outros pecadilhos.
Ciente, ou quase, dos danos que teremos que arcar.
Talvez porque no íntimo, julgamos que determinados acontecimentos não nos atingirão jamais. É difícil aceitar até que aconteçam com os outros.
Há anos eu menosprezava a depressão, achava exagero, frescura até. Foi uma depressão após o parto que me fez reconhecer a gravidade do problema.
Fui aprendendo a respeitar os problemas de todos.
Sempre acreditei também, que exames médicos não devem ser temidos, afinal eles estão aí para nos ajudar. Se for diagnosticado um problema, que venha, devemos enfrentá-lo.
Novamente falhei na avaliação e na semana passada, me apavorei com uma endoscopia.
Todos dizendo que era simples e eu tremendo.
Senti-me um pouco aliviada no dia do exame, pois meus companheiros de espera compartilhavam da mesma angústia. Ri, falei muito, foi a maneira que usei para enfrentar o nervosismo.
Depois veio o remedinho aquele que bota a gente para dormir, derruba até elefante. É remédio para se tomar deitado porque senão a cama jamais será encontrada. O maldito pode produzir amnésia anterógrada, ou seja, esquecemos os eventos recentes. Esqueci totalmente o trajeto do hospital até em casa.
Dormi o dia inteiro, acordei com a cabeça leve.
Assim fica fácil entender, porque as pessoas que não conseguem enfrentar determinadas situações, recorrem às drogas. Fugir do mundo e dos problemas pode parecer uma delícia.
Sofri pelo resultado, azucrinei todo mundo mas felizmente não é nada grave.
E tirei mais uma conclusão importante – mentira de quem diz que o melhor sono é o sono depois do sexo. É mesmo o sono depois da endoscopia.
Piadas a parte, tem horas em que seria bom ser criança novamente e não ter preocupações.